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Paula Lima: “A arte de compartilhar, valorizar, incluir e vencer”

Paula Lima é colunista de RG e escreve, geralmente, aos sábados (Foto: Lucas Fonseca)

Por Paula Lima

Salve salve! É um prazer estar aqui novamente. Tem sido muito bom poder dividir ideias e pensamentos com vocês. Nesta semana, o professor indiano Ranjitsinh Disale, de 32 anos, conquistou o Global Teacher Prize 2020, prêmio considerado como o “Nobel da Educação“. Ele foi nomeado o professor mais excepcional do mundo, à frente de outras 12 mil indicações

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Desde 2009, Ranjitsinh leciona em uma escola primária para meninas que vivem em condições precárias, em um vilarejo na Índia. Ele transformou a vida delas, fazendo com que obtivessem bons resultados, inclusive evitando o casamento precoce. Também oferece aulas de ciências online para alunos em 83 países e dirige um projeto internacional de construção de conexões entre jovens em zonas de conflito.

A história já emociona e é inspiradora por si só, mas, além disso, ao receber o prêmio de US$1 milhão, Disale dividiu metade do valor com os outros 10 finalistas – lista que conta com uma professora brasileira, Doani Bertan. Ela desenvolve um projeto de inclusão com crianças surdas. Cada um deles recebeu US$ 55 mil (aproximadamente, R$ 284 mil). Foi a primeira vez que isso aconteceu na história do prêmio.

Foto: Divulgação

O professor nos faz refletir sobre um espírito evoluído e a incrível capacidade de se apegar em algo que realmente importa e resgata milhares de pessoas. A educação salva e Disale mais do que ninguém entendeu esse poder.

A frase emblemática e humana de Disale promove a igualdade e a justiça para todos: “Neste momento difícil, os professores estão dando o seu melhor para garantir que todos os alunos tenham acesso ao direito de nascença de uma boa educação”.

Isso é tão básico! Tão bonito de se entender e tão perversamente maquiado no Brasil e em grande parte do mundo. Quantas crianças não têm acesso à educação e já têm um destino traçado e determinado por isso? Quantas vidas poderiam ser transformadas? Quantas crianças poderiam ser salvas? O futuro do mundo seria outro? Teríamos e podemos ter uma outra realidade? 

São admiráveis a valorização do outro, a divisão para que se obtenha um bem comum, a doação de tempo e conhecimento para o ensino de vulneráveis. Isso é sobre compartilhar, valorizar, incluir e vencer.

Outra ação importante que aconteceu recentemente e que pode mudar o futuro dos envolvidos é o projeto “Invasão de Livros”, sob comando de René Silva (@renesilva), mentor da Voz das Comunidades, jornal comunitário que traz notícias das favelas do Rio de Janeiro. Com o projeto, a doação de milhares de livros invadiu os Complexos do Alemão e da Penha, levando literatura para pessoas que muitas vezes não têm acesso a livros. Vamos trocar a violência pela educação. Que vitória!

Foto: Divulgação

E, ainda sobre, isso gostaria de falar sobre o meu encontro desta última 5ª feira com o sensacional Silvio de Almeida, que, por sorte, é meu amigo. Falamos sobre a transformação essencial e vital obtida através do conhecimento e da ação.

Silvio é um dos maiores intelectuais do nosso tempo! Preciso, cirúrgico, dono de um conhecimento ímpar, uma educação e elegância ao tratar de forma objetiva sobre o tema racismo. Ele vem transformando cabeças e corações com a sua retórica. 

Isso tudo sem se colocar como um herói. Pelo contrário, ele sabe que é um instrumento e uma ponte, mas, além disso, se coloca como parte de um movimento para obter bons e sólidos resultados e fins, ressignificando existências e buscando um lugar digno e justo para todos. 

Uma de suas análises preciosas diz respeito justamente sobre compartilhar e incluir para vencer. Ele diz que enquanto não dermos condições financeiras, de saúde (incluindo saneamento básico) e educação (motivo de mobilidade social)  para a população negra brasileira, que é mais da metade do país, nunca seremos um país desenvolvido. Enquanto não houver acessos e poder, transformando o sobreviver em viver, criar, ser economicamente ativo e consumir, nunca sairemos do lugar onde nos encontramos. 

Silvio fala sobre educação de maneira ampla, trazendo sua importância e observando os profissionais que “comandam” o mundo (médicos, engenheiros e advogados) desde os mais remotos tempos. Por isso, a relevância de termos negros ocupando essas posições. No Brasil, a primeira escola de ensino superior construída foi a Faculdade de Medicina da Bahia, em 1808, quando o Brasil ainda era Império e era impensável que negros a frequentassem. Aqui, trago fotos dos formandos negros da faculdade em 2020, que ocupam lindamente suas posições.

Foto: Divulgação

Silvio também diz que é preciso sair das ideias em papel e partir para ações, e que pessoas realmente antirracistas devem aprender a dividir e também perder parte dos seus privilégios, além de obrigatoriamente serem a favor de políticas públicas, do SUS e serem ativas nas políticas privadas. Assistam a entrevista completa e essencial no IGTV da @casanaturamusical.

Essa ação de Ranjitsinh Disale e tantas outras análises do professor e intelectual Silvio de Almeida, são transformadoras e são para o bem comum. São novos tempos, novos ares em que não podemos apenas “ser” e atentar para os nossos próprios e “pequenos” interesses. Existe algo maior, necessário e urgente, que são pessoas, vidas e o futuro. 

Por isso, hoje eu peço uma reflexão sobre a arte e a importância em compartilhar, valorizar, incluir para vencer. Não há dúvidas de que realmente juntos somos mais fortes e melhores.

Paula Lima é cantora, compositora e apresentadora. Atualmente, está à frente do “Chocolate Quente” na Rádio Eldorado. Também é uma das diretoras Na União Brasileira de Compositores (UBC).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Site RG.

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