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Suzy Menkes: alta costura em Versailles

Suzy Menkes fala sobre mostra de alta costura moderna no grandioso cenário de Versailles

Por Suzy Menkes, do International Herald Tribune

VERSAILLES, França — Quem poderia imaginar que estilistas modernos se sentiriam à vontade entre os arabescos, enfeites dourados, pinturas e chafarizes de Versailles? Isso se aplicou não apenas ao povo da moda comemorando o encerramento da semana de alta costura de Paris em julho, mas também aos vestidos e casacos, estampas de flores e bustiês curvilíneos em exposição, tudo inspirado no estilo do século XVIII. Vivienne Westwood, a outrora rainha do punk, foi lindamente representada nas salas interligadas do Grand Trianon. Os vestidos da estilista britânica – assim como os de muitos criadores arrojados – se misturaram tão bem com os móveis chiques e trajes de 200 anos atrás também expostos que virou um jogo de couture adivinhar quais roupas eram de que século.

Le XVIII au Goût du Jour,” ou “Um Gosto do Século XVIII”, é o mais recente trabalho de Olivier Saillard, o curador sábio, mas com mão leve, e diretor do Musée Galliera, o museu de moda de Paris. Um dos pontos fortes de Mr. Saillard é saber como fazer com que as roupas de ontem pareçam relevantes hoje. Ainda mais intrigante é a ideia do curador de um enfrentamento entre o passado e o presente, onde vestidos de baile super amplos da Dior ou do astro da década de 1980 Thierry Mugler combinam totalmente com a noção fundamental de Versailles de que nada é mais bem sucedido do que o excesso. De fato, a visão da década de 50 da Dior de um vestido floral, exibido junto com um Balmain, parece tão apropriado quanto uma criação mais selvagem de John Galliano.

O desfile “Vive la Cocotte”, de Vivienne Westwood, de 1995, marcou uma mudança no pensamento da estilista, do punk selvagem ao clássicos calmos – ainda que ainda com uma pegada espirituosa e um toque de subversão sexy. A coleção, inspirada nas pinturas de François Boucher, combinou com o cenário do rebuscado Boudoir de l’Impératrice (o boudoir da Imperatriz Marie-Louise). Outras peças de Westwood incluem um bustiê estampado com uma parte de uma pintura rococó e um vestido de baile com estampa tirada de uma obra de Jean-Honoré Fragonard. “Pareceu uma ideia interessante fazer um ‘cara-a-cara”, disse Saillard, que está levando sua expertise a vários locais enquanto o Musée Galliera passa por uma reforma.

É difícil imaginar como o curador poderia ter se deparado com marcas ousadas como Yohji Yamamoto ou Comme des Garçons, ou até mesmo Balenciaga contemporâneo, para sua homenagem à era mais antiga. Ainda assim, o corte de uma peça by Mr. Yamamoto, e a elegância desgrenhada da visão mais antiga de Nicolas Ghesquière na Maison Balenciaga não parecem fora de lugar. De fato, eles lembraram os espectadores da noite de estreia, composta por insiders do mundo da moda, que mesmo estilistas conhecidos têm facetas inesperadas. Mr. Saillard também escolheu não limitar a exposição a roupas femininas. Uma esplêndida peça de couture verde, desenhada por Alexander McQueen durante sua época na Givenchy, parece ter sido inspirada por casacas com brocados do passado. É um interessante contraste à exposição “Savage Beauty” do trabalho de Mr. McQueen no Metropolitan Museum of Art em Nova York, que se concentrou na parte mais inventiva – mas menos usável – do trabalho do estilista.

Há alguma lição a ser aprendida sobre adequar peças do passado – principalmente em um cenário tão grandioso como Versailles? Afinal, a peruca empoada ao estilo do século XVIII desapareceu com a eclosão da Revolução Francesa em 1789. E uma sala exibindo designs de Christian Lacroix enfatiza como sua frivolidade dinâmica está fazendo falta na alta costura atual. Mas na moda, assim como na música, modernidade tem tudo a ver com o mix. E um pouco da grandiosidade palaciana de Versailles cai muito bem.

Le XVIII au Goût du Jour” está em exibição em Versailles até 9 de outubro.

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