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Mostra de Giselle Beiguelman revela preconceitos na nomenclatura do universo botânico

Foto: Divulgação/Giselle Beiguelman

De 28 de maio a 18 de setembro, o Museu Judaico de São Paulo (MUJ) apresenta sua primeira grande exposição de 2022. Em “Botannica Tirannica”, mostra inédita e concebida especialmente para o museu, a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman constrói a genealogia da estética do preconceito embutido nos nomes dados a plantas. Um hábito comum usado por grupos dominantes no Brasil e em todo o mundo.

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Nomes como, por exemplo, judeu errante, cavalinho de judeu, sapatinho de judia, maria sem-vergonha, bunda de mulata, peito de moça, malícia de mulher, beiço de negra, catinga de mulato, entre muitos outros. Para Felipe Arruda, diretor-executivo do Museu Judaico de São Paulo, “a mostra ‘Botannica Tirannica’ está totalmente alinhada a uma das vocações do museu de mapear, trazer à tona e desconstruir preconceitos, contribuindo para uma sociedade mais informada, consciente e que respeita a diversidade”.

A extensa pesquisa realizada durante um ano e meio permitiu reunir nomes de mais de cem plantas em cinco grupos: antissemitas, machistas, racistas, contra indígenas e contra ciganos. Muitas dessas plantas têm sido categorizadas tradicionalmente como “ervas daninhas”, sempre combatidas, nunca erradicadas, o que acabou sendo adotado pela artista como um manifesto de resiliência (e da não romantização da resiliência), propondo um contra-discurso. “Um exemplo claro da dominação masculina reforçada pela taxonomia pode ser visto desde o momento em que a botânica do sueco Lineu (1707-1778) dividiu as plantas em angiospermas (masculinas e superiores) e gimnospermas (femininas e inferiores)”, analisa Giselle. “Do ponto de vista estético, isso configura um mundo balizado pelos critérios da eugenia, uma forma de racismo científico que defende a ideia de que o mundo é um jardim e as chamadas ervas daninhas devem ser eliminadas.”

“Giselle Beiguelman é uma criadora de imagens dedicada a pensar a natureza das próprias imagens na contemporaneidade, mobilizando de maneira crítica, imprevista e inventiva a relação entre estética e política, arte e tecnologia”, afirma Ilana Feldman, curadora da mostra. Para além desta pesquisa e documentação, o trabalho da artista utiliza Inteligência Artificial (IA) para criar novas espécies e categorias abstratas, o que pode ser visto na série “Flora Mutandi”, um conjunto de 18 impressões fotográficas, resultante do cruzamento de espécies já conhecidas, e uma impressão em grandes dimensões tendo como imagem central a planta popular judeu errante (Tradescantia zebrina), um dos principais ícones dessa temática, que tem o mesmo nome em várias línguas, como alemão, francês, inglês, e uma das muitas expressões agressivas usadas contra os judeus, inclusive na propaganda nazista.

Foto: Divulgação/Giselle Beiguelman

Os novos nomes sugeridos são impronunciáveis, aleatórios, fora de qualquer classificação, avessos a qualquer lógica aparente, consequência de um intricado – e limitado – sistema de algoritmos, os mesmos usados para sugerir senhas. Por sua vez, os nomes das séries, em latim, remetem ao icônico registro sobre animais e plantas brasileiras, o livro “Viagem pelo Brasil” (1817 – 1820), dos naturalistas alemães Carl von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826), que, a convite da princesa Leopoldina, fizeram um até então inédito levantamento da biodiversidade brasileira.

Também produzidos por IA, cinco vídeos, um para cada grupo de pesquisa, compõem a série “Flora Rebelis”. Um ensaio visual de 15 minutos passeia pelos fundamentos e processos do trabalho de investigação e criação da artista, desde o nascimento da botânica até o uso de IA, revelando detalhes de como a pesquisa foi feita, assim como faz o gabinete de pesquisa montado na entrada da exposição. 

Até o momento, as ferramentas de IA só conseguem produzir imagens em formato quadrado (36 cm x 36 cm, um forte número cabalístico, assim como os demais números da mostra), o que determinou a escolha de monitores especiais, que reforçam esse padrão limitado da tecnologia. “Ao contrário dos povos indígenas, que não se limitam a perspectivas, nós já não conseguimos entender o mundo fora de janelas, presos ao formato quadrado de monitores, celulares, livros, o que me faz perguntar se seremos um dia incapazes de enxergar tudo aquilo que fica fora do padrão, subjugados à Inteligência Artificial e a um novo e ainda mais perverso colonialismo dos dados”, pondera a artista.

Foto: Divulgação/Giselle Beiguelman

Compõe a mostra, um Jardim da Resiliência, com plantas reais em alguns espaços do museu, como um jardim circular montado em pleno espaço central do 2º subsolo e intervenções em áreas externas, inclusive na escadaria da Avenida 9 de Julho. Arrematando esta exposição multimídia, três luminosos com as frases “Toda erva daninha é um ser rebelde”, “A nomenclatura é um ritual de apagamento” e “Mais clorofila, menos cloroquina”, este em plena porta de saída do MUJ. A mostra também conta com obras do artista convidado Ricardo Van Steen, que produziu cinco aquarelas inéditas, de estética naturalista e científica, em que ele retrata jardins imaginários a partir de cada um dos grupos de pesquisa.

Museu Judaico de São Paulo – Rua Martinho Prado, 128, São Paulo, SP

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