Cultura

Por Marcelo Ribeiro 30.06.2019

Pequeno dicionário metafórico-futebolístico aplicado à dependência química F-G

F

Fazer corpo mole (Exp.id.): não levar alguma coisa a sério; empurrar com a barriga; procrastinar; não se esforçar.  Corpo mole é tudo o que não se deve esperar de alguém em processo de recuperação – há muita coisa em jogo, um time inteiro, que  conta com a participação de todos os componentes – nesse sentido, a expressão se estende para além do paciente pré-contemplativo (vide Malhar em ferro frio), cheio de ressalvas, questionamentos, ironias e sono durante as consultas, para incluir no mesmo rol, a família ausente ou poliqueixosa, cheia de expectativas de que a equipe de saúde resolverá sozinha o problema do seu parente, o médico burocrata e sabichão, pleno de verdades e teorias modernas, mas que nunca desce ao chão-de-fábrica, o psicoterapeuta “cabeça”, cheio de frases e trocadilhos pseudo-elaborados, mas péssimo em encarar as coisas de forma mais pragmática. | Pode ser ainda, que o “corpo mole” tenha raízes em sintomas do espectro depressivo ou de déficit de atenção e hiperatividade – merecendo, assim, um olhar especializado – ou reflita um momento delicado de algum dos componentes do tratamento – um desânimo momentâneo, uma estafa –, carecendo então de um ajuste de ponteiros (vide verbete homônimo). | De todo modo, corpo mole no tratamento da dependência química é um sinal de alerta, que merece a atenção de todos.

 Fazer o dever de casa (Exp.id.): cumprir com a sua parte; entregar o prometido.  Mais do que “cumprir um acordo”, “honrar um compromisso” ou “evitar de sobrecarregar os demais membros de um grupo”, fazer o dever de casa é um exercício de engajamento, de paciência e de disciplina por parte do  paciente.  Isso inclui aceitar monitoramentos, aderir às atividades propostas, confiar na equipe, se afastar das situações de risco e não guardar segredos de natureza ético-pessoal. | Apesar de o paciente ter um papel preponderante no tratamento, todos os integrantes do time – familiares e profissionais -,  têm deveres de casa a cumprir | O tratamento da dependência química é acima de tudo um processo pragmático, de ação conjunta e de amadurecimento contínuo.

 Formar um time (Exp.id.): reunir pessoas interessadas em uma mesma atividade; estabelecer vínculos que propiciem e reforcem a necessidade do trabalho em equipe.  O time é o protótipo básico de trabalho na clínica da dependência química.  Nada dará certo se o paciente, sua família e o grupo de profissionais envolvidos – que não são necessariamente da mesma equipe –  não estiverem trabalhando em cumplicidade e harmonia. | Qualquer prenúncio de boicote ou de críticas obscuras fortalecerão a doença, que, por sua vez, dividirá ainda mais os esforços implementados até o ponto de inviabilizá-los (vide Cair a cabeça do técnico). | Trabalhar em time não significa ausência de regras, tampouco ausência de hierarquia, muito menos tomada de decisão conjunta, tal e qual uma assembleia. | Do contrário, um time trabalha a partir da construção de regras de atuação claras, inclusive com expectativas e consequências, quando essas expectativas são violadas ou deixam de ser cumpridas.  A função do estabelecimento de regras dentro de um time se presta ao propósito de aumentar a confiança e a cumplicidade entre os seus pares. O paciente, em geral, chega desacreditado pelos pais, enquanto esses, confusos, lançaram mão de medidas heterodoxas – de internações involuntárias em “muquifos”, passando por expulsão de casa, até literalmente “sair na mão” com o dependente – e também perderam a credibilidade junto ao paciente.  A equipe de saúde, inicialmente, é vista com frequência como “autoritária”, “insegura”, “um prolongamento dos pais”.  Por isso é preciso normatizar como esse time vai funcionar.  Eis o espírito do contrato terapêutico (vide Contratação). | Todo o time tem uma hierarquia e cada membro do time tem uma responsabilidade atribuída.  Desse modo, no âmbito do futebol,  por mais que na comemoração do título o técnico seja jogado ao ar e leve um banho de água gelada, na sala de entrevistas, pelo jogadores, todos sabem que ele tem atribuições hierárquicas que o colocam acima desses, em várias ocasiões: por exemplo, cabe apenas a ele escalar o time e modificá-lo durante o jogo.  Todos sabem que se em algum momento ele passar a escalar porque o dirigente ou a torcida mandou, será o fim de sua credibilidade.  Da mesma maneira, sua autoridade não lhe permite ser autoritário: os jogadores têm voz e demandas, as quais, quando não são atendidas, ou pior,  são abafadas pela personalidade irascível do técnico, quase sempre culminam na queda do mesmo. | Dessa maneira, no âmbito das drogas,  o psiquiatra não pode se furtar de suas responsabilidades médicas e de lidar com as expectativas que o paciente e a família – ou seja, o imaginário sociocultural – colocam  nele, ao mesmo tempo que não pode se achar absoluto nessa posição. | Por fim, considerando tudo o que já foi dito aqui, vale lembrar que um “time de tratamento” não é uma assembleia, apesar de a equipe sempre buscar a tomada de decisão consensual.  Muitas vezes, a necessidade de uma parte – da equipe técnica, da família ou do paciente – prevalece sobre as demais, sempre em prol da qualidade de vida do paciente. | De modo que um time que funciona, em geral é aquele composto por indivíduos tecnicamente preparados e por pessoas comprometidas com um processo de recuperação, inicialmente balizada por regras de atuação e de convivência, mas que, com o estabelecimento de empatia e alteridade – bases para a construção de vínculo terapêutico sólido – vai ganhando ares de “família”, sem nunca perder sua função profissional primordial: a de tratar.

Frango (S.f., gir.): gol marcado a partir de uma falha técnica inusitada do goleiro. Ao lado da “pisada na bola” e da “bola nas costas” (vide verbetes homônimos), o “frango” é um acidente de percurso que expõe o time aos comentários irônicos do público e,  dependendo do “clima do jogo” (vide verbete homônimo), a todo tipo de sentimento negativo, como a raiva, a frustração, o derrotismo, podendo levar à desunião do time e ao fracasso do tratamento. Desse modo, situações como essa se resolvem essencialmente com reformulação, com “bola para frente” (vide verbete homônimo), em parte deixando “rolar”, por outra, “ajustando ponteiros” e “arrumando a casa”, sem deixar de “fazer o dever de casa” (vide verbetes homônimos). | Até o passado ficar no passado novamente.        

Fundamentos do futebol (Exp.id.): técnicas básicas que compõem essa prática esportiva.  Condução da bola, drible, passes, cobranças, cabeceio – além de outros – são fundamentos que fazem parte da estratégia de jogo (vide Estratégia de jogo).  Na clínica da dependência química há uma série de modelos, referenciais teóricos, técnicas e ambientes de tratamento que formam o “enquadre terapêutico”, a partir do qual o tratamento se dará. | O primeiro aspecto do enquadre é o tipo de tratamento: farmacológico, psicológico, sociocultural ou uma combinação desses, considerando as suas inúmeras linhas e referenciais teóricos de abordagem.  Ainda nesse aspecto, é preciso definir as metas a serem atingidas, por exemplo a abstinência total, o retorno ao emprego e a retomada dos estudos. | O segundo aspecto do enquadre, se refere à definição do ambiente de tratamento: ambulatorial – em consultório, como CAPS-AD, em grupos de mútua-ajuda, em graus variados de intensidade e combinados entre si ou com outras atividades; internação curta ou longa e  ambientes não-especializados, tais como cursos, atividades esportivas, etc. | Por fim, a equipe de profissionais envolvidos – especializados, generalistas, conselheiros, grupos de mútua-ajuda.  Em primeiro lugar, a composição – médicos, psicólogos, equipe multidisciplinar do CAPS-AD, grupos de mútua-ajuda; em segundo, o coordenador, que poderá ser  aquele que a formalmente exerce esse papel dentro de uma equipe pré-formada, ou aquele que a família elegeu como o profissional de maior confiança e com essa atribuição conversará com os demais; em terceiro lugar, o estabelecimento de  como os profissionais trabalharão: de modo centralizado – o coordenador comandando e os demais executando; ou  de forma multidisciplinar – cada um fazendo a sua parte e eventualmente  conversando e de forma interdisciplinar – por mais que não sejam aprioristicamente da mesma equipe, procurando discutir o caso com regularidade, tomar decisões convenientes e tomando cuidado para que a escolha de alguma conduta não interfira na prática do outrem.

G

Gol (S.m.): [do inglês] objetivo; ponto obtido quando a bola ultrapassa a linha do gol.  O momento mágico do jogo, o arremate de uma jogada ou estratégia de ataque bem-sucedida, motivo de grandes comemorações. | Atingir objetivos é algo importante dentro do tratamento da dependência química.  Também é importante sofrer reveses – levar um gol – e permanecer em campo, em sintonia com a equipe, lidando com as dificuldades. | Por fim, saber perder e aprender com a derrota, faz parte do programa. | Marcar um gol, por si só, não garante a vitória no final, mas embala a equipe (vide No embalo), aumenta o otimismo interno – por exemplo, aderir a um programa de internação breve de forma dedicada, completar um mês abstinente,  apresentar testes toxicológicos na urina negativos seriados, são gols importantes, ainda que o placar inicial ainda esteja favorável ao time da dependência – é preciso correr atrás do prejuízo (vide verbete homônimo). Voltar à faculdade, retomar o trabalho, a atividade física: gols.  Conseguir se formar, recuperar plenamente a confiança dos grupos de convívio, estar empregado a ponto de prover à própria vida – e da família, se houver – golaços, gols de placa! O troféu do Campeonato Pessoal da Recuperação está praticamente em  mãos, mas o jogo só termina quando acaba a partida (vide verbete homônimo)

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Pequeno dicionário metafórico-futebolístico aplicado à dependência química  D-E

Marcelo Ribeiro, psiquiatra, membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), docente do Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho (Uninove), diretor do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas de São Paulo (Coned). 

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