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“Amor é o novo dinheiro”, decreta Fernanda Abreu com 1º disco inédito em 10 anos

Por André Aloi

Aos 54 anos, Fernanda Abreu passou por um turbilhão de sentimentos na última década que a fizeram adiar os planos de entrar nos estúdios de gravação. Pôs fim a um casamento de 27 anos com Luiz Stein, ao passo que viu suas filhas virarem adolescentes. Sua mãe entrou em coma, vindo a falecer anos depois, e teve de cuidar do pai. Pouco antes, a artista havia rescindido contrato com a EMI, nos idos de 2003, quando sentiu que as gravadoras estavam indo para o buraco. No ano seguinte, lançou seu último trabalho de inéditas, o “Na Paz”, depois embarcou no projeto ao vivo, da antiga MTV.

Nesta sexta-feira (20.05), ela abre um novo capítulo em sua jornada ao lançar Amor Geral (Sony Music), seu primeiro disco em 10 anos, 12 se a gente contar só os de inéditas. “‘Love is The New Money’ (‘amor é o novo dinheiro’, em tradução livre), de verdade. Esse cinismo e sarcasmo, baseados no dinheiro e no poder, não tem mais pra onde ir. Ou a gente refunda um novo capitalismo, com bases mais humanas e amorosas. É um momento complicado. O amor vai ser sempre esse enigma a ser decifrado pelo homem, porque está colado ao ódio – é dialético. Pra mim, soa como um antídoto contra esse momento de intolerância”.

Para a artista, o tema é muito atual, pois o trata como uma bandeira de resistência. “É reflexo desse clima de ódio, meio agressivo, que não é próprio da Democracia. A gente caminhava para uma agenda de debates sobre legalização do aborto, mesmo que no comecinho, a falar de drogas, de homossexualidade, da liberdade de amar quem quiser, das novas formações de famílias e do direito das mulheres, ir contra o racismo. Pautas humanas e sociais importantes para a sociedade brasileira, não só econômicas”.

O namorado, Tuto Ferraz (baterista do Grooveria), tem grande participação nesse comeback. “Quando o conheci, ele que me deu um puxão de orelha. Falou: ‘começa ai’. Liguei pro Pedro Bernardes e corri atrás das coisas. As músicas estavam muito espalhadas. Tinha uma ideia do funky aqui, outro groove ali, ideias de letra. Mas não estava conseguindo me concentrar e não estava com vontade de começar um processo de gravação para mim. Não junto produtor e banda e gravo em 10 dias. Não é minha vibe”.

Nesse novo trabalho, ela mostra um lado mais humanizado, se impõe e se expõe de maneiras nunca vistas antes, reflexo da análise que começou a fazer em 2008 por conta da crise no casamento, mesma época em que a mãe entrou em coma. “Foi um momento importante, libertário, de começar a entender o que eu queria, com 50 anos”, comenta. O disco é muito autoral, tem uma faixa pra cada uma dessas pessoas que fizeram parte desse twist na vida de Fernanda. “Esse disco está muito pessoal, estou muito exposta. Eu não escolhi isso, era minha única saída. Pra eu, verdadeiramente, sentar, criar e me sentir envolvida nesse conceito, era esse assunto mesmo”.

Em nenhum momento Fernanda pensou nessa exposição como uma estratégia. “As pessoas perceberam que era o que dava pra fazer. Foi totalmente orgânico, da própria criação. Eu só pensei nisso depois. Eu não consegui elaborar esse pensamento enquanto estava produzindo. Depois que o disco estava pronto, falei até isso na análise. Até eu mesma me surpreendi como estou encarando, de uma maneira interessante, essa exposição grande da minha vida pessoal. Acho até corajoso da minha parte. Por ser virginiana, sempre fui mais tímida”.

Antes de se afastar dos estúdios, Fernanda afirma que viu o mercado fonográfico ruir. “As gravadoras começaram a falir. Vacilaram num grau! Não é à toa que esse período foi bem difícil e de muita apreensão para quem trabalha com composição, artista e intérprete. O CD foi por água abaixo com a pirataria, depois houve um mercado mal sucedido de compra de músicas pela internet até chegar, mais ou menos, ao streaming (que é um aluguel de musicas). A gente não sabe se vai dar certo ou não”.

Segundo a cantora, as plataformas digitais têm que entender que precisam pagar as editoras independentes, não só as filiadas. “Dizem que banco de dados é incompleto, que não têm tecnologia suficiente. Fica uma situação! Nunca se ouviu tanta música no mundo e nunca foi tão difícil fazer negócio e ser remunerado por ela”, frisa. Por isso, ela optou por privilegiar o ao vivo nesses últimos anos.

Ao colocar sua carreira em perspectiva, não mudaria em nada sua trajetória na música. “Eu acho ótimos os discos, com muita verdade e ideias. Muita gente boa participando. São discos bem interessantes. Os nãos que dei na carreira, posso ter feito uma coisa ou outra, mas nada que tivesse me arrependido”, gaba-se. “O interessante que percebi nesses 10 anos é que o dinheiro não é só moeda. As escolhas que fiz me trouxeram um certo prestígio. As pessoas me procuraram para projetos especiais, programas de TV. É importante você construir uma carreira coerente com o que você é, as coisas em que acredita quanto à linguagem autoral, uma assinatura”, pontua.

Exemplo de garota carioca suingue sangue bom para ela é outra Fernanda, a Montenegro. “Ela tem 80 e poucos anos, fica direto em estúdio, gravando. Tem uma cabeça ótima. Superantenada e humana, up-to-date com a agenda humana. Minha preferida”, exemplifica. Ela espera chegar à idade da atriz fazendo música. Nós também! “Espero que a música seja um pouco mais generosa. Consiga tratar um pouco melhor os criadores, compositor e artista. Música está muito descartável. Todo mundo acha que pode consumir de graça. É como se eu entrasse numa loja, pegasse uma camiseta, e saísse andando e sem pagar. Não dá pra entrar numa peça e assistir sem pagar”, opina.

CONCEITO
Fernanda afirma que se aprofundou muito no áudio para produzir este disco, que é um reflexo de trabalhos anteriores, mas aponta pra o futuro. “Uma das coisas que me chamou a atenção nos últimos anos foi o subgrave. Era algo que queria usar no disco”, frisa. “Falei que queria um disco de música pop com punch. Não tô afim de sonzinho lo-fi, mas que quando toque alto, bata nas caixas”. Produzido no eixo RJ-SP, o disco levou dois anos e meio para ser finalizado. Contou com parceiros antigos, como o produtor Liminha, o DJ Memê, Laufer e o compositor Fausto Fawcett, e novos nomes, como Qinho, Donatinho e Tuto Ferraz, e os produtores Wladimir Gasper e Sergio Santos. Quem também está no disco é o americano Afrika Bambaataa, de quem ela era fã.

FUNK CARIOCA
Defensora dessa bandeira desde os tempos de Blitz, ela acredita que o Funk ainda sofre muito preconceito porque está atrelado ao racismo. “Funk carioca sempre foi música eletrônica. Mas sempre sofreu um puta preconceito porque era feito por preto, por gente da favela. Nunca a inteligência e a Academia encararam o funk dentro do panteão da música brasileira. Sempre se envergonharam, deixaram de lado”. Ela ressalta a diferença comparando o cenário-revelação de artistas no Rio, com o funk, com o hip-hop, em SP. “Pelo menos o Criolo e o Emicida estão defendendo com bastante dignidade o som. Agora, depois de tanto tempo, de tanto apanhar, acho que o funk chegou lá”.

Ela atribui esse sucesso ao fato de a classe média ter digerido o som com nomes como Anitta e Ludmilla. “Acho ótimo que a Anitta tenha virado o grande nome da música pop brasileira. Ela faz aquilo bem. Mas não dá pra negar que o funk tenha virado algo de butique. Tem esse lado. É sempre um pouco assim, mas vai sair do limbo”. Para a cantora, esse cenário é bom para criar uma história e indústria em cima disso.

DIREÇÃO CRIATIVA
Quem assina a direção criativa dessa nova fase de Fernanda é Giovanni Bianco, cujo currículo está permeado de artistas pop, do naipe de Madonna e Gisele Bundchen, mais recentemente Anitta. Eles se conheceram por meio de Regina Casé. “Em um dia, estava na pista de dança, ele passou por mim e falou, brincando: ‘agora que você se separou do Luiz Stein, a gente vai poder trabalhar junto’. Fui lá, catei ele e falei que estava terminando meu disco. Vamos trabalhar juntos”, contextualiza. “Acabei indo pra Nova York, no estúdio dele, conversamos muito por Skype, até chegar a esse projeto gráfico”, derrete-se, dizendo que ficou encantada com o cara por ser uma pessoa das mais generosas. “Era a pessoa perfeita para estar num projeto como ‘Amor Geral’.”

COLETÂNEA
Apesar dos dez anos sem um disco cheio de inéditas, fez participações em projetos, como “Elas Cantam Roberto”, uma gravação para o selo da Mart’nália e barzinho e violão. Ela pretende reunir num único disco os trabalhos que não entraram em seus discos de carreira, aos moldes da “Coleção”, de Marisa Monte, e o anterior de Bob Dylan, que interpretou clássicos de Frank Sinatra. “Tenho algumas gravações que até penso em juntar a lançar para os fãs. O interessante são músicas que fiz para outras gravadoras e não estou recompilando”.

NOS PALCOS
Apesar de não ter lançado nada novo nesse período, Fernanda se dedicou aos palcos “para segurar as contas de casa”. Excursionou pelo País com a turnê do MTV Ao Vivo e montou um projeto de eletroacústico para se apresentar em teatros. “Montei uma banda com baixo, bateria, violão e teclado. Pego todos os meus sucessos e faço outras leituras, ainda canto Marina Lima e Michael Jackson”, situa. Após uma temporada no Sesc Belenzinho, se apresentará com esse projeto no dia 28 de junho, em São Paulo, no Teatro Porto Seguro. Em julho, deve estrear a turnê do novo disco.

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