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RG Entrevista: Francisco Hurtz

Por Matheus Evangelista

Arte por arte. Traço por traço. Não desta vez. Francisco Hurtz, um dos artistas da Galeria Emma Thomas, instalada em São Paulo, vem ganhando cada vez mais espaço e o motivo dessa ‘invasão’, nas conversas, na timeline, na casa das pessoas é um só – ousadia. Lembro que há dois anos, despretensiosamente, dei de cara com os desenhos finos e minimalistas de Francisco. O que ele desenhava era novo para mim. O que via na tela de um celular me instigava. Foi o bastante para que a curiosidade aumentasse, e felizmente, o trabalho dele também. Dos traços vieram as pinturas e uma confiança extra instalada num cara que é pura personalidade.

Seguir Francisco nas redes sociais é como mergulhar de cabeça na vida dele, entrar sem pedir. Olhar, observar. Ele sabe disso, e faz questão de alimentar sua curiosidade. Apertar o botão de Follow é como dar um salto sem boias e com um fôlego dos maiores – vai ser preciso. Fragmentos de sua vida sexual, esboços que podem – ou não – terminar na parede de uma casa, inspirações simples, desenhos que instigam. O bem bolado aqui é bem feito, provoca e faz querer mais.

Francisco ganhou exposição relâmpago, “O Estranho” – sua quinta expo individual – participou de um bate-papo aberto ao público sobre “A Arte Queer no Brasil” e apresentou mês passado suas pinturas, até então vistas apenas em seu Instagram. Na conversa abaixo Hurtz explica seus anseios, o que o motiva, suas adversidades e vontades. Porque ele tem muito o que mostrar. E sabe qual é o melhor de tudo?  Que a gente quer continuar vendo…

Seus desenhos, por mais simples que pareçam, são contestadores. Na nudez, explicita ou não, há uma mensagem, um recado. O que você quer transmitir através deles?

A pesquisa em desenho partiu do desejo de fragilizar os corpos dos homens, reduzir ao máximo, manter apenas a linha essencial que separa o corpo do mundo, que separa o corpo de um outro corpo; a linha limite. Costumo dizer que eu não desenho corpos, desenho fronteiras. A partir do momento que considero que os desenhos das linhas dos corpos são fronteiras, surge a possibilidade de investigar territórios onde esses corpos se inserem. Quando questiono territórios masculinos, quando desenho multidões de homens sem rosto, quando desenho corpos afundados no nada, surge a possibilidade de falar de construções sociais, valores, papéis, condutas, que norteiam a vivência do homem; posso falar de gênero. A masculinidade é um território estreito com muitas regras e qualquer pessoa que não siga as leis desse território é denunciado e punida. A masculinidade tem vocação pra produzir marginais, é só ver a qualidade de notícias sobre crimes homofóbicos nos jornais, a violência contra a mulher diária e incessante, a vida difícil das travestis que abdicaram dos privilégios masculinos pra tomar pra si o universo feminino. A masculinidade é uma mentira que precisa ser destruída, a masculinidade é a maneira que a sociedade criou pra perpetuar poderes onde o homem heterossexual é protagonista da história. O homem é uma linha frágil e simples que só existe porque a gente acredita que existe. O homem precisa ser reinventado pra que haja igualdade.

Além de instigar e provocar, seus trabalhos exploram o corpo masculino, este, sempre tratado com cautela e quase sempre coberto por publicações, artistas e outros veículos midiáticos. Você vai além de “provocar” de uma forma simples, mas de efeito. De onde vem a sua ânsia pelo diferente?

O nu masculino tem um papel importante na história da arte mas certos pudores interferem no olhar do espectador. O imagem do homem nu causa um impacto diferente da imagem corpo despido da mulher, que é objetificado e usado pra vender em qualquer propaganda de cerveja. A cultura gay se apropriou da produção maciça de imagens de corpos de homens, todos desejáveis e hipermasculinos, reflexo do machismo dos homens gays que reforça a ideia de corpos indesejáveis ou inferiores. Eu não vejo a necessidade de produzir mais do mesmo e nem pretendo pactuar com uma produção inofensiva de imagens. Eu não sou um artista manso. Eu tenho uma postura política e tomo pra mim o dever de apontar questões que desestabilizem o status quo.

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Onde aprendeu a desenhar? Como tudo aconteceu?

Eu desenho desde criança. A arte surgiu pra mim através da pintura e o desenho veio da necessidade de falar mais baixo, do desejo por simplicidade, de aproximar a imagem de algo parecido com a escrita. A pesquisa dos corpos masculinos surgiu em 2010, quando eu notei que havia poesia escondida em imagens banais de grupos de corpos de homens, daí eu me aproprio da imagens desses corpos, suprimo a identidade, cor, idade e os transformo em linhas.

O que te inspira?

A insatisfação.

Já foi criticado ou precisou defender seu trabalho, seu pensamento, seu olhar, em algum momento de sua vida profissional?

Já tive que defender minha integridade física, recentemente fui ameaçado por um grupo de lutadores de Muay Thai que se reconheceram em fragmentos fotográficos sem rosto de uma pesquisa ainda inédita onde capturo imagens de homens heterossexuais nus nos vestiários e as situações eróticas entre eles. Já tive obras danificadas, arrancadas da parede, exposições arbitrariamente censuradas pra maiores de 18 anos. Percebo que as pessoas sempre precisam de uma legitimação pra considerar toda a potência que existe no meu trabalho. Tenho que provar constantemente a relevância da minha produção numa sociedade cada vez mais conservadora e hipócrita como a brasileira.

Seus mais recentes trabalhos provocam ainda mais de onde veio essa nova linha artística? Suas pinturas são tão reais que parecem fotografia.

Quando amadureci a pesquisa de desenho, tive que repensar a pintura como meio de falar de território, durante esse tempo eu produzi pinturas com os dois pés afundados na incerteza. Fiquei muito reticente em voltar a expor o que não fosse desenho. A minha pesquisa em pintura veio de uma das minhas conversas de madrugada com o Tadeu Chiarelli pelo Facebook. Ele foi o primeiro a me alertar sobre a potência da minha pintura que não cabe no meu discurso político e q possibilidade de usar o corpo como meio de falar de questões que, além de políticas, são humanas no sentido mais primordial.

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Quem acompanha você no Instagram percebe que essa liberdade ultrapassa seus traços. Seminus e outros cliques provocantes, insinuantes, recheiam sua timeline. Essa exposição é proposital? Ou é sua forma de se expressar e dialogar com o que cria?

Eu sou um sujeito sexual e tenho orgulho disso. O Instagram me serve como um exercício pra pensar as minhas imagens cotidianas através de valores artísticos, inclusive as situações de sexo. Quando uma imagem fotográfica do meu cotidiano tem potência suficiente pra fugir do simples registro e pode ser assumida como fotografia de arte, não tenho nenhum problema com nudez ou expor situações reais de sexo. Estou num processo interessante do desdobramento do desenho e pintura na fotografia. Eu fotografo os homens com que eu faço sexo sempre que posso. De certa forma é uma homenagem a todos os homens que fazem parte da minha vida. É uma celebração de uma sexualidade que a sociedade despreza. É um exercício de liberdade.

Há fetiches inseridos em suas fotos (pessoais) e em seus desenhos e pinturas. Vimos camisinhas abertas, pés, diversas referências ao ato de urinar, algemas, máscaras de látex e referências, me corrija se estiver errado, ao BDSM (bondage, discipline, dominance, submission, sadism, masochism…). Expor essas preferências sexuais estão correlacionadas com o seu trabalho de qual forma? Existe uma divisão ou isso é impossível?

Eu tenho desejos de dominação e isso se manifesta também no poder de ter uma câmera na mão e a possibilidade de capturar a imagem de um outro homem que é objeto do meu desejo. Eu me aposso da fragilidade daqueles homens submissos que se entregam tão generosamente. A princípio eu faço porque gosto, num segundo momento existe uma analise crítica em cima das imagens capturadas. Se há potência artística na imagem, eu assumo a fotografia como parte da minha produção.

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A arte homoerótica está crescendo constantemente. Você, além de imprimir essa essência em suas criações, ainda trabalha um viés político ao inserir armas, homens mascarados, rendidos em meio a ações que fogem do cotidiano. Essa provocação, se é que podemos chamar assim, imprime uma força, uma dominação que vai além dos seus personagens. Seria esse o retrato, sob o seu olhar, do nosso cotidiano fragmentado e completamente deturpado da realidade, cheio de imposições e amarras?

Não gosto do termo “arte homoerótica”, soa como um gueto dentro da arte. Eu faço Arte. Faço arte pra todos, não um segmento social específico. A realidade segrega muito. A realidade é violenta e eu não posso fechar os olhos. Hedonismo é uma forma de escapismo, não cabe na minha pesquisa. Elementos simbólicos que evoquem relações de poder são importantes pro entendimento da minha obra. A metralhadora é um elemento recorrente na minha produção porque nela mora o poder potencial de destruição em um símbolo masculino, assim como as cenas de tortura e humilhação são reflexo do lado dos oprimidos. Quando um homem sem rosto empunha uma metralhadora, ele empunha um poder, empunha uma história, empunha a decisão de vida e morte do inimigo. É o sentimento que permite que um idiota dê com uma lâmpada na cara de um homossexual. É o sentimento que faz o homem se sentir no direito de espancar a esposa. É o poder que vigia e pune o oprimido. O cotidiano é cheio dessas misérias desses idiotas que acreditam ter um poder nas mãos.

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