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A mulher Navajo

Morre a historiadora que provocou uma reavaliação, inclusive estética, da cultura Navajo

por Augustuzs Neto

Das exuberantes joias que ajudam a compor a persona cult de Iris Apfel à bela e influente coleção outono/inverno 2011/12 da Proenza Schouler, da inspiração vista nas roupas de lojas como Urban Outfitters ou grifes como Lilly Sarti ao, porque não dizer, zigzag-assinatura da Missoni, um elemento de ligação surge como origem dessa onda ‘nativa’: o cobertor Navajo. Considerado até o início dos anos 70 como artesanato sem valor estético e/ou econômico, fruto de uma sub-raça ‘dita’ cruel que povoava o imaginário branco (graças a Hollywood) como selvagens sem alma e coração, os têxteis ganharam a moda. Mas foi um esforço… Foi preciso que uma americana da Costa Leste dos EUA com formação em história resolvesse mergulhar no garimpo dessas peças, no melhor estilo ‘missão de vida’, para mostrar e provar ao mundo que tratava-se de arte pura e simples – e não de mero componente decorativo classe média de quinta categoria.

Então curadora do Museu de Arte de Los Angeles, Mary Hunt Kahlenberg montou, em 1972, uma exposição chamada The Navajo Blanket, que sacudiu a crítica e o público da época provocando uma profunda reflexão, e consequente reavaliação, sobre a iconografia indígena da América do Norte. Se hoje vemos essa influência de forma marcante e incontornável na moda, joalheria e decoração, é porque essa mulher, falecida em 27 de outubro último, dedicou uma carreira inteira ao estudo e divulgação da cultura Navajo dentro de seu próprio solo e no resto do mundo. Sem exagero e com a convicção de que não se pode viver o futuro quando se é desprovido de perspectiva histórica, podemos afirmar que, ao chamar a atenção e revelar a extrema sofisticação da arte têxtil nativa americana, Mary Hunt Kahlenberg elegantemente sussurrou nos nossos ouvidos que os selvagens somos nós. R.I.P., Miss K.

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