Cultura

Por Redação 06.07.2018

“O feminismo não deveria excluir o homem”, diz Fernanda Young

Existe um frisson no imaginário popular a cada vez que anunciam um novo projeto de Fernanda Young. Não foi diferente com seu livro atual, “Pós-F”, com ensaios e textos autobiográficos a respeito de questões que envolvem o masculino e o feminino nos dias atuais.

Em conversa com RG, a escritora fala sobre a obra, feminismo e liberdade em tempos de assédio.

Como surgiu a ideia de escrever “Pós-F“?
A Editora LeYa me procurou em 2016, estavam interessados em publicar algo meu. Eu estava ocupada escrevendo um romance, que mais uma vez tive que interromper, devido a muitos acontecimentos. Um romance requer muita concentração, e a vida desconcentra.  Mas é raro que eu não esteja escrevendo algo, seja roteiro, diários, poesias. Então fui aconselhada pela minha agente a aceitar um projeto com a LeYa. E então veio a ideia de um livro sobre o feminismo. Relutei, pois parece-me ser a moda da vez. Mas é um tema necessário e achei justo que eu dissertasse sobre.

No livro, você afirma que “o feminismo alimenta o machismo e vice-versa”. Como assim?
A natureza humana demonstra uma clara necessidade de polarização. E estamos em uma época de opostos em conflito. Não acho inteligente excluir o outro de um debate que busque soluções iguais. Vivemos numa sociedade patriarcal que faz mal aos homens e as mulheres. O machismo é alimentado por ambos os sexos, e ambos saem perdendo. O feminismo não deveria excluir o homem.

Ao mesmo tempo em que você é famosa, é também muito livre e ousada. Acha que as pessoas misturam as coisas e se sentem no direito de te censurar?
A liberdade é algo que pode causar raiva em alguns, naqueles que não são livres e que creem poder restringir os outros de o serem. É mesmo desagradável a raiva dessas pessoas, afinal a minha liberdade diz respeito a mim, e creio que a conquistei através da maturidade, responsabilidade e dor. Vivemos um momento de moralidade e hipocrisia.  Eu tenho plena consciência do meu valor como artista e não deixarei que essa virulência atinja a minha arte, a minha sexualidade, a minha liberdade. Mas eu sinto medo, sim. Ser agredida não é algo que eu tenha me acostumado. E eu já cheguei a ser agredida fisicamente, como uma ocasião que uma mulher me deu uma tapa na cara, acusando-me de vagabunda. As pessoas têm medo de quem é livre. É um absurdo isso.

Por falar em assédio, tem o caso em que você processou um cara em 2015 por te xingar no Instagram e somente em 2017 um juiz o condenou a pagar R$ 5 mil, valor bem abaixo do esperado.
Essa história me faz mal. Porque cheguei em um limite que já não posso gastar mais dinheiro para ir adiante, e acredito que não dará em nada. Esse juiz – Christopher Alexander Roisin – é um símbolo da grosseria de um sistema que tem como máxima punir a vítima. O agressor – Hugo Leonardo de Oliveira Correa – acaba por sair incólume. E eu saio lesada emocionalmente, moralmente e financeiramente, uma vez que gastei bem mais para conseguir a identidade deste homem. Para mim, ambos são dois doentes sociais e sexuais.

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